Libidos diferentes não são uma competição
O que costuma causar dificuldade não é a diferença em si, mas tudo o que pode crescer à volta dela: pressão, rejeição repetida, culpa, ressentimento, evitamento ou a sensação de que cada momento de afeto pode transformar-se numa negociação sobre sexo.
A pergunta útil não é:
«Qual de nós tem a libido certa?»
É: «Como podemos tornar esta diferença mais fácil de gerir para ambos?»
É fácil começar a usar as expressões «parceiro com libido alta» e «parceiro com libido baixa». Estes rótulos podem descrever um padrão, mas também podem atribuir silenciosamente papéis: uma pessoa parece estar a pedir demasiado e a outra parece não dar o suficiente. Nenhum dos papéis é útil.
O desejo sexual não é uma pontuação em que uma pessoa tem o número certo e a outra o número errado. Em vez disso, encarem a diferença como uma situação partilhada da relação: duas pessoas vivem o desejo de forma diferente e precisam de uma maneira de lidar com essa diferença sem que os limites ou as necessidades de nenhuma delas desapareçam.
Este guia concentra-se em formas práticas de fazer isso. Para uma explicação mais aprofundada da terminologia e dos fatores que podem influenciar o desejo, leia o nosso guia sobre discrepância do desejo sexual.
1. Falem sobre o padrão quando ninguém estiver a tentar fazer sexo
Uma das piores alturas para resolver uma diferença de libido a longo prazo é imediatamente depois de uma pessoa ter iniciado sexo e a outra ter dito que não. Nesse momento, uma pessoa pode já se sentir rejeitada, enquanto a outra pode sentir culpa ou pressão.
Escolham antes um momento neutro: durante uma caminhada, a tomar café, num fim de semana tranquilo ou noutra altura em que nenhum dos dois espere que a conversa leve a sexo.
Algumas perguntas úteis:
- Quando é que normalmente te sentes mais ligado a mim?
- Quando é que a intimidade é mais fácil para ti?
- Há situações em que tomar a iniciativa é stressante?
- O que te faz sentir pressionado ou, pelo contrário, mais descontraído e próximo?
- Preferes uma iniciativa espontânea ou saber que temos tempo para estar juntos?
- Que formas de afeto te fazem bem mesmo quando não queres sexo?
O objetivo não é negociar uma quantidade mínima de sexo. É compreender a experiência de cada um. Se for difícil iniciar estas conversas, veja o nosso guia sobre como falar sobre sexo sem criar pressão.
2. Tornem o «hoje não» emocionalmente seguro
Uma relação com libidos diferentes precisa de espaço tanto para o desejo como para a falta dele. Uma pessoa deve poder dizer «Gostava de ter intimidade contigo esta noite» e a outra deve poder responder «Hoje não me apetece». Nenhuma das afirmações deve transformar-se automaticamente numa crise.
A pessoa que quer sexo tem direito a sentir-se desiludida. Mas a desilusão não deve transformar-se em persuasão, culpa, castigo, amuo, retirada de afeto ou tentativas repetidas de mudar a resposta da outra pessoa.
Da mesma forma, quem diz não não tem de inventar uma explicação suficientemente convincente para o seu limite. «Estou cansado», «Ainda estou com a cabeça no trabalho», «Quero afeto, mas não quero sexo» e «Hoje não me apetece» são respostas suficientes.
Se dizer não provoca regularmente conflitos ou culpa, uma pessoa pode começar a evitar situações que possam ser interpretadas como sexuais. Até abraços, beijos ou toques carinhosos podem começar a parecer arriscados se todas as formas de proximidade forem entendidas como um convite para sexo. Isso pode criar mais distância, não menos.
Para o momento específico em que uma pessoa quer sexo e a outra não, leia o nosso guia sobre o que fazer quando um parceiro quer sexo e o outro não.
3. Separem o desejo sexual da rejeição pessoal
Quando os desejos sexuais são diferentes, ambos podem começar a contar histórias dolorosas sobre o significado dessa diferença. «Hoje não» pode ser entendido como «Não me queres», enquanto «Quero-te» pode ser entendido como «Estás à espera de algo de mim outra vez».
Nenhuma destas interpretações é necessariamente aquilo que a outra pessoa quis dizer. Tentem separar a mensagem da interpretação: «Quero sexo» pode simplesmente expressar desejo, e «Não quero sexo hoje» pode ser apenas um limite para aquele momento.
Quanto mais seguros ambos se sentirem para comunicar estas mensagens, menos cada momento terá de se transformar num referendo sobre toda a relação. Se o não começou a parecer algo profundamente pessoal, leia o nosso guia sobre como lidar com a rejeição sexual.
4. Procurem padrões nos momentos em vez de se concentrarem apenas na frequência
Os casais descrevem muitas vezes libidos diferentes como uma diferença na frequência com que cada pessoa quer sexo. Por vezes, a frequência é realmente a diferença central. Mas, por vezes, o problema maior é o momento.
Ambos podem gostar de fazer sexo duas vezes numa semana, mas uma pessoa sente interesse tarde à noite, enquanto a outra está exausta às 22h e mais disponível para a intimidade de manhã. No papel, as vossas libidos podem não parecer muito diferentes. Na prática, podem desencontrar-se constantemente.
Prestem atenção às manhãs e noites, dias úteis e fins de semana, dias stressantes e descontraídos, carga de trabalho, rotinas com os filhos, sono, privacidade, interrupções e à necessidade de uma pessoa sair do modo de trabalho ou parental. Perguntem: «Quando é que a ligação surge naturalmente entre nós?» Se o difícil for tomar a iniciativa, consulte o nosso guia sobre como iniciar sexo sem constrangimento.
5. Criem oportunidades de intimidade sem criar obrigações
Muitos casais esperam que o sexo aconteça de forma completamente espontânea. Trabalho, filhos, deslocações, tarefas, viagens, stress, horários de sono e dezenas de pequenas responsabilidades podem deixar muito pouca sobreposição entre a energia e o desejo de duas pessoas.
Criar espaço para a intimidade não tem de significar colocar o sexo no calendário como um compromisso que tem de acontecer. Pode significar deitarem-se mais cedo juntos, manterem uma noite relativamente livre, organizarem quem tome conta dos filhos, terem uma manhã sem pressa, guardarem os telemóveis ou criarem espaço para o afeto sem presumir que tem de levar a algum lado.
Uma oportunidade não é uma obrigação. Planear tempo juntos não significa que qualquer pessoa tenha prometido fazer sexo. Qualquer um dos parceiros pode continuar a mudar de ideias.
6. Parem de manter uma contagem sexual
Quando uma pessoa quer sexo com mais frequência, pode ser tentador reunir provas: «Só fizemos sexo duas vezes este mês», «Tomei a iniciativa nas últimas quatro vezes» ou «Disseste não três vezes esta semana». Usar números como prova numa discussão faz muitas vezes com que a intimidade pareça uma transação.
O sexo não é uma dívida que se acumula. Um parceiro não deve um sim no futuro por ter dito não várias vezes antes. Ao mesmo tempo, a solidão ou a frustração recorrentes não devem ser ignoradas.
Falem sobre a experiência que está por baixo do número. «Tenho sentido falta da proximidade física entre nós» ou «Começo a ficar tenso quando tomas a iniciativa porque tenho medo de te desiludir» revelam algo que o casal pode realmente discutir.
7. Mantenham o afeto separado da expectativa sexual
Quando os casais têm dificuldade com desejos diferentes, o afeto não sexual pode desaparecer como dano colateral. Uma pessoa pode usar o afeto como caminho para iniciar sexo, enquanto a outra pode começar a evitá-lo para não criar a expectativa errada.
Pode ajudar criar formas de proximidade que possam permanecer exatamente aquilo que são: «Gostava de me aconchegar e não estou a tentar iniciar nada» ou «Não me apetece sexo, mas gostava muito de estar perto de ti».
Ninguém deve afeto a ninguém. O objetivo não é substituir uma obrigação por outra, mas dar ao casal mais do que dois estados possíveis: sexo ou distância.
Uma forma privada de verificar se os vossos estados de espírito coincidem
In The Mood foi concebido em torno deste problema de comunicação. Os parceiros ligam-se em privado na aplicação e podem indicar como se sentem no momento, usando estados de espírito como Intimacy, Affection ou Not in the Mood.
Se os estados de espírito compatíveis coincidirem, ambos podem receber uma notificação. Se não coincidirem, a aplicação não transforma a diferença numa rejeição direta. Cada pessoa pode comunicar como se sente sem obrigar a outra a responder a um pedido íntimo naquele momento.
Isto pode ser útil quando o problema é a incerteza sobre o momento. Um sinal de estado de espírito continua a ser apenas comunicação. Uma correspondência não é consentimento, autorização ou obrigação de fazer sexo. Ambos continuam a decidir o que querem fazer a seguir, e qualquer pessoa pode mudar de ideias a qualquer momento.
Se esta abordagem vos parecer útil, vejam como o In The Mood pode ajudar os casais a lidar com libidos diferentes.
8. Decidam o que significa realmente «melhor» para a vossa relação
«Resolvido» não significa necessariamente que ambos passarão a querer sexo exatamente com a mesma frequência. Progresso pode significar que a pessoa com mais desejo consegue expressar interesse sem vergonha, que a pessoa com menos desejo consegue dizer não sem recear consequências, que a rejeição parece menos pessoal e que o afeto não cria automaticamente uma expectativa sexual.
Também pode significar que ambos compreendem melhor o timing um do outro, conseguem falar sobre diferenças recorrentes sem discutir e encontram mais momentos em que o desejo coincide naturalmente. Esse é um objetivo mais saudável do que tentar tornar idêntico o desejo sexual de duas pessoas.
E se os vossos desejos sexuais forem muito diferentes?
Algumas diferenças de desejo são relativamente fáceis de gerir quando o casal compreende os seus padrões de tempo e de comunicação. Outras causam sofrimento significativo e persistente.
Considerem apoio adicional se a diferença estiver a provocar ressentimento recorrente, evitamento, conflitos, medo ou dificuldade em falar sobre sexo. Um terapeuta de casais ou sexual qualificado pode ajudar a compreender os padrões recorrentes da relação sem atribuir a uma pessoa o papel de «problema».
Um profissional de saúde também pode ser adequado quando ocorre uma mudança significativa ou preocupante no desejo sexual, especialmente se puderem estar envolvidos dor, medicação, alterações de saúde, saúde mental ou outros fatores físicos. O apoio profissional não deve pressionar um parceiro a querer mais sexo; deve ajudar a compreender o que está a acontecer e a tomar decisões informadas sobre a saúde e a relação.
Não precisam de libidos perfeitamente alinhadas
Duas pessoas não precisam de querer sexo exatamente ao mesmo tempo e com a mesma frequência para terem uma relação satisfatória. O que acontece à volta da diferença é muito mais importante.
Uma pessoa consegue expressar desejo sem criar uma obrigação? A outra consegue dizer não sem ser castigada ou responsabilizada pelas emoções do parceiro? Conseguem manter o afeto quando o desejo sexual não coincide? Conseguem reparar nos momentos e nas condições em que é mais fácil sentirem-se ligados?
As libidos diferentes podem nunca desaparecer completamente. Também não têm de definir a relação. Por vezes, a maior melhoria não vem de mudar a quantidade de sexo que qualquer um dos parceiros quer, mas de criar uma relação em que ambos possam ser honestos sobre o que querem, o que não querem e os momentos em que os seus estados de espírito coincidem.
